sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

“2/3 das pessoas pedem demissão do CHEFE”

A estarrecedora informação de que 67% das pessoas pedem demissão de seus chefes foi extraída do livro “o monge e o executivo” de James Hunter. Este livro, de repercussão mundial, trouxe para mesa de debates das organizações o tema “Liderança Servidora”, em que o autor constata a falência dos métodos antigos de liderança (grito, medo, coerção) e propõe novas dimensões para uma autêntica e eficaz liderança, tais como: amor, sacrifício, serviço, vontade, altruísmo e etc. Na ocasião, muitos reconheceram e ainda reconhecem a importância dos conceitos ali estabelecidos. Alguns ficaram tão admirados com a publicação que até esqueceram do outro livro do mesmo autor, chamado “como se tornar um líder servidor” (que recomendo a leitura).

Entretanto, a percepção que temos é que o trabalho, na prática, no dia-a-dia das organizações, mantém longa distância dos valores e comportamentos pregados pelo autor de “o monge e o executivo”. Costuma-se dizer que “o trabalho dignifica o homem”. Isto deveria traduzir que o trabalho traz nobreza, honra, alegria. Mas, de fato, é isto que ocorre? Pense por um minuto no seu trabalho. Pense por dez segundos no seu chefe. Se o sentimento foi de satisfação, serenidade e confiança, parabéns, você faz parte das exceções. Não acredita que a situação seja essa? Proponho, então, um desafio: percorra os corredores de sua empresa e converse com quatro ou cinco colegas. Existe grande chance de que a maioria exponha suas frustrações com relação ao trabalho. E a lista é extensa: falta de perspectiva profissional; baixos salários; perseguições; falta de reconhecimento; indignações; colegas sabotadores; infra-estrutura precária para as atividades, corporativismo de determinadas classes; sobrecarga de trabalho e por aí vai...


Observe que isso pode ocorrer em qualquer contexto organizacional. Pode ser na faculdade, por exemplo. Quantos ingressaram cheios de planos, expectativas, imaginando um futuro profissional brilhante. E de repente se deparam com um professor carrasco, perseguidor, cobrador de notas, dono do saber. É como um forte solavanco! A disciplina fica indecifrável, o ambiente carregado, o coleguismo blindado. As incertezas, nesse contexto, são elevadas e, não raro, os alunos abandonam o caminho.


O intrigante é que nunca se valorizou tanto o ser humano nos ambientes de negócios. Talvez nem os expoentes da Escola de Relações Humanas, como Elton Maio, Mary Follet, dentre outros, tenham imaginado um cenário futuro tão promissor e valorizador do papel das pessoas nas empresas. Não é difícil ouvirmos as seguintes afirmações: “as pessoas são as coisas mais importantes na minha empresa”; “o capital humano é o que tenho de melhor”; “vocês são os responsáveis pelo sucesso da empresa”; “sem vocês eu não seria nada”. Há um consenso, e isto de fato é indiscutível, de que não pode haver empresas se não houver pessoas. Sequer existiria qualquer modelo de organização política, social e econômica se não existissem indivíduos. Nem empresas, nem qualquer outra forma de organização social seriam possíveis sem as pessoas. Assim, a valorização dos trabalhadores, uma obviedade dos nossos tempos, é aceita e reverberada independentemente do porte da organização. Algumas empresas fazem até coisas estranhas, tentando valorizar os funcionários. Tiram aquelas fotos questionáveis e colocam assim: “funcionário do mês” (aliás, você já encontrou o funcionário do mês?); outras dão medalha de “honra ao mérito” e pedem “jamais tirem isso do peito” e o sujeito fica feliz e o mundo continua.


Mas, e os 2/3? e a infelicidade no trabalho? Por que tantos estão desanimados e vendo o trabalho como um fardo pesado? Pode ser muitas as explicações. Todavia, parece razoável aceitar que uma delas é a ausência de uma liderança voltada para pessoas, nos moldes discutidos por Hunter. Ou seja, uma liderança que, antes de tudo, supre as necessidades das pessoas. Necessidades e não vontades. Que enxerga nas individualidades a possibilidade de uma coletividade forte. Que acredita que a liderança não é uma questão apenas de genética, e sim fruto de esforço, de treino. Além disso, traz à consciência o fato de que a liderança ultrapassa os limites dos cargos funcionais, que deve ser exercida por meio da autoridade e não do poder. E mais ainda, faz com que as pessoas, entusiasticamente, trabalhem por um objetivo comum.
Hunter sugere que a dinâmica organizacional envolve tarefas e relacionamentos. Questões essas indissociáveis. Não existe produção sem que as pessoas se relacionem. Portanto, é preciso investir nessas duas dimensões, equilibrando-as. Quando ouço que determinada empresa tem política de valorização de seus colaboradores, procuro saber o que de verdade existe. Oferece salário de mercado? Tem participação nos lucros? Valoriza publicamente as conquistas individuais? Oferece treinamento? Envolve as pessoas no planejamento? Oferece benefícios reais? E coisas dessa natureza.


De certa forma, já estamos cansados do palavrório, da retórica, do “tapinha nas costas” e dos modelos mágicos de gestão. Queremos experimentar um trabalho prazeroso, e isso passa, inequivocamente, por uma liderança comprometida com as pessoas. E isso é urgente, antes que nos tornemos estatísticas.

Prof. Leilson Lyra

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Remando contra a Maré


Revirando o passado: Uma carta introdutória a RSE


Quero inaugurar nosso fórum com um assunto espinhoso: Responsabilidade Social das Empresas. Digo espinhoso, pois é voz corrente que as empresas devem assumir responsabilidades junto a sociedade de forma a torná-la mais justa. Assim, quase nunca encontramos alguém disposto a dizer não a "ditadura" da Responsabilidade Social. Pra início de conversa, segue uma carta introdutória ao tema. Se o asunto prosperar, iremos mais fundo, analisando pesquisas, metodologias de avaliação de projetos sociais e etc. Espero que participem. Então, mãos à obra!!!

Revendo o que foi discutido há 10 anos, vê-se que a RSE (Responsabilidade Social nas Empresas)
ainda era um movimento incipiente, mas que começava a ganhar forças. A preocupação era que o argumento crítico ao movimento – de que os problemas sociais eram de responsabilidade do governo – eram infundados.
A RSE surgia do vácuo deixado justamente pelo governo, em que se aumentavam os problemas sociais (decorrentes do neocapitalismo) e piorava a atuação dos governos para combatê-los. Como poderiam alguns lucrarem tanto e outros serem tão miseráveis? Até que ponto as pessoas se contentariam com isso? A mudança de postura requeria investimentos no trinômio: Estado – empresas – indivíduos. Para Paulo Freire “o mundo recusaria a ditadura do mercado, fundada na perversidade ética do lucro”. Nessa época os investimentos em RSE prometiam significativos lucros.
Os primeiros debates em torno da chamada questão social datam do período em que o capitalismo se consolidou como sistema econômico, ou seja, por ocasião da Revolução Industrial. Nessa época as máquinas passaram a substituir as pessoas no processo produtivo, culminando com a aceleração da competitividade e o surgimento dos abismos sociais. As abordagens das Escolas de Administração – clássica e humanista – traziam, respectivamente, as seguintes preocupações:

i) Eficiência industrial;
ii) Eficiência humana.

A análise entre o “homem econômico” e o “homem social” estava estabelecida. Porém, avançava, com muito mais vigor, o conceito de homem social, elemento crucial para o desenrolar dos debates sobre RSE.
O Tempo não pára e a RSE se robustece. Segundo Grajew “num futuro próximo, cada pessoa antes de trabalhar, buscará saber se a empresa é socialmente responsável”. Daí surgem as mais preocupantes campanhas de valorização dos conceitos e práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Como exemplo, tem-se que “como estratégia de gestão, a prática de RSE contribui para a construção de uma sociedade mais justa e mais próspera”. Noutro caso, tem-se que “73% das pessoas deixariam de comprar produtos de empresas, caso soubessem que estão envolvidas com algo ilícito”. “76% das pessoas preferem marcas que estejam envolvidas com projetos sociais, desde que tenham preço e qualidade”. Desse ponto em diante já não é mais possível retroceder. O movimento é irreversível. No campo prático a batalha já está vencida. Mas no campo teórico muito ainda se pode fazer.
Atualmente, as empresas vêm sendo fortemente incitadas a serem “socialmente responsáveis”. A construção desta idéia passa pela inversão das regras em que se fundamenta o capitalismo e a lógica da livre concorrência. Assim, as empresas assumem e/ou reforçam o papel do agente público (Estado). Isto é, as organizações, em alguns casos, tornam-se responsáveis pelo desenvolvimento de programas que promovam a redução dos problemas sociais. Conseqüentemente, o lucro – que é fundamental para a sustentabilidade dos negócios – tende a ser visto como objetivo secundário.
O que veremos, em breve, é que a inversão de valores e responsabilidades redesenhará o modelo de organização econômica, trazendo, eventualmente, prejuizos ou resultados diferentes daqueles que se esperavam quando os investimentos foram realizados.

Boas Vindas

Estamos iniciando, nesta data, nossas atividades neste blog. A expectativa é que usemos este espaço para discutirmos os caminhos da administração e da economia. Isto significa resgatarmos o valor dessas áreas do conhecimento, traduzindo seus aspectos conceituais, as vezes distantes de nossa simpatia, em aplicações práticas para o nosso dia-a-dia.
Esperamos, assim, que se construa um espaço permanente para reflexão e discussão dos assuntos que circundam os meios empresariais, os livros e as academias. Desejamos que nossos alunos participem, que as empresas consultem e que nós todos cresçamos juntos.

Att,

Prof. LEILSON LYRA